— O último capítulo

Chamava-se Isaias. Pelo menos foi o nome que deixou escrito no espelho, com um canetão preto daqueles — comprovado depois — permanentes. Recebi o convite pela tarde do dia anterior, o James — eu sei, é engraçado! James! — disse que era cena rápida, que iríamos entrar, ele ia trocar algumas ideias com o sujeito e sairíamos; não dei a mínima para o assunto que tratariam, não me interesso por coisas que não são do meu interesse. Acompanhei-o até lá por educação e amizade, já que marcamos para o mesmo horário tratar um outro assunto sério num bar chamado Vasconcelos.

— Então, mano, é rápidão, pára de viadage… Olha ali o bar… — apontou pro fim da rua…

Demonstro carinho pelas pessoas de maneira exaltada, sem um pingo de remorso.

— Vai se foder, James, seu otário, enrolado do caralho!

O bar ficava perto dali mesmo, coisa boba, virar a esquina da Cardeal Frederico, dobrar à direita e sei lá, uns 10 minutos. Realmente não sei… no momento não me interesso. Subimos uma escada não era uma escada não precisamos lembrar os seis andares subidos, entramos direto pela porta aberta do apartamento pensado estar o tal na cozinha. Não gosto de suspense. Adoro meu temperamento. Prefiro falar de mim do que lembrar a cena da cabeça dele enfiada naquele saco transparente — a cor dele era um roxo claro esverdeado —, com as mãos amarradas para trás, os pés presos na cadeira, e que filho-da-puta, com uma ereção?, como se algo tivesse acontecido ali há pouco tempo. Cê me vem com essa agora, James?, pensei, não pude dizer, acho que eu vomitaria. Havia uma carta equilibrada no ombro dele, pegamos e nos distanciamos para a sala.

— Que merda é essa, James?

James estava… estranho. Pálido. Foi ele quem viu o nome do Isaías no espelho do banheiro depois de vomitar na pia. Sei que me enrolei todo na argumentação. Mas a cena foi complicada mesmo. Que porra eu e o James — que convenhamos, não tem culpa — estávamos fazendo ali naquele apartamento? Na porra da casa de quem, do Isaías? O nome no espelho? Aquele saco na cabeça dele?… Sentamos no sofá de dois lugares na microsala, quase de frente pro corpo. James estava com a carta na mão, não sei se conseguiu lê-la com todo aquele tremelique, passou-a para mim e acho que não nos resta nada nessa história além de lê-la, eu faço o favor:

SUBSEQUÊNCIA

Meu amor,
Dizem que quando se escreve, se registra, e fica eternizado.
Fica aqui o meu
eu me importo com você.

1/4/2014

à Rita Moraes



MOMENTO PRIMEIRO

Jorge ficava a passar as memórias pela cabeça, como num catálogo. Pensara algumas vezes sobre, que mania idiota, normalmente as pessoas não lembram mas acontecem muitas coisas num dia, cada vez mais itens num catálogo? Insistia pela técnica, porque quem sabe retomando um pensamento sempre de seu ponto de origem não conseguisse, com maestria, mais um pouco de lógica? Pensara algumas vezes sobre: “Penso tanto sobre tanto e minha lógica continua ineficiente e me dando o mesmo pessimismo”. Além da temporalidade do que aqui relata, talvez esteja Jorge neste momento folheando suas memórias, passeando entre elas, relembrando casos. Sentia muita coisa, mas normalmente o sentimento que predominava era a tristeza, sempre persistente. Sentia-se triste, então. Quando queria, imaginava algo bem legal, uma situação propicia. Coçava o queixo, um intra-sorriso. “Quem tanto pudera que passasse a vida em sonhos só”, lembrou de Quental. Estava cansado de viver coisas que só existiam como tais em sua cabeça.

Acordou, então. Sozinho. “Que maldito dia lindo!”. Sem despertador. De bom humor, também. No quarto que clareava, Diego o observava com aqueles olhos que pareciam dar a volta na cabeça, uma espécie de mosca, moleque feio mesmo; não era parente de Jorge, porém se pareciam fisicamente, aparentemente, assim como dois animais da mesma espécie. O apartamento onde moravam era pequeno, não tinha moveis, não precisavam deles, só tinham tempo de dormir, essas coisas só dão mais trabalho, só ocupam mais espaço, tiram nosso espaço na tentativa de suprimir um vazio inexistente, mais matéria onde habita carne. A conversa do dia anterior era a mesma da semana passada.

— A gente vive no mundo das alegorias, meu caro, tem que impressionar, é mais ou menos assim…
— Quê? — eram 7 da manhã? — Tem vantagem aquele que acaricia o ego alheio a fim de certas pretensões?
— De novo esse assunto? — Jorge lembrou.

Não era hora para uma conversa daquela. Quando é que queremos, aliás, ter uma conversa assim a não ser em nossas próprias cabeças momentos antes de dormir? “Muito complicado viver num mundo onde os valores se invertem na prática”, olhando-se no espelho do banheiro, virou às costas e saiu pela cozinha, passo apertado, já atrasado com as coisas na mão e correndo. Jorge sabia bem do que Diego falava, faltava tempo e falta novidade. “Não tenho meus desarranjos e tenho que ficar aguentando o do zotro”.

MOMENTO SEGUNDO (2/2/2013)

Contemplava, do quinto andar, o céu e as nuvens através da persiana de tom enegrecido que mantinham sempre abaixadas. Os computadores, uma sinfonia de coolers, eram alinhados de maneira que cada um enxergava, de sua mesa, o que outro estava fazendo na dele.

— Por favor, o responsável pelo financeiro… — ouviu a suplica de uma voz simpática.

Ao seu redor, uma corporação deteriorava-se.

— Ai, é só tempo de ir para casa e voltar! — disse alguém no corredor.

MOMENTO TERCEIRO

Éramos colegas de quarto. Não sei o que aconteceu, eu acordei de manhã e ele estava me olhando, uma cara estranha, de espanto, como se tivesse descoberto algo muito importante. Um dia antes me disse que tudo ia mal, que não aguentava mais ter que agradar, elogiar! elogiar, doutor — Jorge não tinha expressão —, eu disse que infelizmente as coisas são assim, que não dá pra mudar, tipo um jogo, uma regra. Éramos colegas de quarto, três anos, ele era tímido, onde está a novidade em elogiar alguém, doutor? A porta bateu e eu fiz questão de acompanhá-lo, foi coisa boba, casal sempre briga, saímos pela cozinha eu e ele. Não sou bom com elogios, faço a critica válida. “Sempre que você se olhar no espelho e se sentir linda, lembre-se que beleza não é tão importante e que o mundo está cheio de gente bonita e fútil”. A cara que Suzane ficou era horrível. Ouvi a conversa calado como sempre. Que culpa tem de não entendê-lo?, eu entendia. Ela passou por nós do lado de fora maldizendo, agora imagina ao souber que o coitado foi assassinado, doutor?

Vomitaram no ônibus esses dias, tinha cheiro de leite e pão estragados. Talvez quem vomitou ficou com vergonha e desceu para esperar outro ônibus. Quem da catraca passava, não sabia se com a mão livre pegava o troco ou segurava a ânsia. Tão ruim acordar de manhã e vestir as calças! Acredito que viveria confortavelmente minha vida inteira de bermudas. O motorista do ônibus, se de bermudas estivesse no dia, talvez estaria mais confortável. Quem vomitou, por sua vez, se estivesse mais confortável, talvez não tivesse passado mal. Os rostos que me cercam evitam se olhar. Sente-se que todas essas pessoas não gostariam de estar aqui.

Meus olhos pesam de manhã. Até onde minha memória alcança, invariavelmente, muito me cobro; e do resultado, desgostoso, mais cobranças surgem. Que bosta de vida! A única coisa que as pessoas têm além do tempo são coisas imaginadas e bens materiais. Uma sensação de desconforto me acompanha. Acordo todo dia atrasado e todos os horários da Raposo parecem ocupados, sempre com gente nos carros vazios, parecendo terem adivinhado minha saída. Às vezes evito olhar o relógio. Sou a demência de não compreender e inconformar-se.

— Por que você é tão dramático?
— Porque tudo é tragédia.
— Por que você é tão dramático?
— Porque você é tão… vadia?

A observação dos fatos é importante. Conhecimento traz o conhecimento de que a libertação é utópica. Aquilo que demorou uma vida inteira para ser elaborado não pode ser aprendido em um semestre. Algumas pessoas se gabam por reproduzirem pensamentos outrora criados, e o fervor em citar o que fulano ou beltrano disse é tão apaixonado, que parece que em suas mentes não existe autonomia de pensamento. Sinal vermelho.

Abri um livro e procurei uma resposta. Centenas de soluções já foram propostas, afinal. Por que nenhuma funciona? Imagino os coitados que não conseguem raciocinar sobre. Os que conseguem, bonachões, disputam na Academia sua subjetividade. Talvez seja uma etapa do processo de racionalização a racionalização de que a racionalidade nada resolve. Qualquer dia sou atropelado por andar tão apressado.

Vejo que fiz algumas escolhas erradas no passado, mas vejo que não tive mais que essas opções. Disse para o cobrador esses dias que uma vez me disseram não haver novidades na minha fala. O coitado não deu a mínima, não há novidade em não haver novidades, as noticias são sempre as mesmas, sempre com um protagonista e uma vitima diferente. “Para de bobeira, moleque”. Fiquei assustado. “É assim que acontece”. Então é destino?, perguntei. “Se existe destino, a sorte dos que o tem é predestinada”.

Um dia você me olhou
E disse que minha risada a assustava.
Minha risada descontrolada
E sádica.
Uma risada fria
E desesperada.
Minha risada
Era um grito da alma.
Um grito por socorro
Que implorava ajuda.
Um grito medroso
Que quer ser acolhido.
Minha risada gritou
E nada aconteceu.
Minha risada te pediu ajuda
Mas não foi ouvida.
E então
Tenho que viver
Sabendo que nossas vidas
Foras afastadas
Por minha risada.


— “O Riso”
Nicholas Piccoli Tscherkas



Questiono-me se nas noites em que não consigo dormir, em que meus olhos não fecham e o escuro vira tela de suas lembranças, se você, da sua cama, também me imagina e de mim lembra. Porque talvez seja sintonia.

DESEJO

Seus lábios rosados,
meu amor
despertam em mim
a fome de te comer
todinha

Os sonhos me consomem na madrugada
e o que mais dói,
é que a vida, de manhã
não é os sonhos
que você me despertou

Neles, nos sonhos
seus sorrisos não me debocham
Deles, dos sonhos
acordo pronto para
te devorar

POSTULADO

Não existe nenhuma significação naturalmente intrínseca nas coisas que acontecem ou que o homem cria ou modifica ou pensa a noite toda.
Tentamos sempre dar
um sentido às coisas,
quando
o único sentido das coisas, realmente
é a falta de sentido

NEGAÇÃO

Lembro
que uma vez chorei
quando me toquei
que o tempo passaria
e sua lembrança
do meu cotidiano sumiria

Se algum dia amei, acho que te amava nesse momento.

NECESSIDADE

Tentei correr
mas onde iria?
Tentei gritar
mas você não ouvia,
não ouviu, não quis me ver
se eu derreter agora, meu amor
você nem vai saber
nem vai tentar adivinhar
como estou
como estive
como vou

Às vezes pensamos e conseguimos chegar a uma conclusão, a um desenrolar de raciocínio. A carência faz as pessoas fazerem coisas idiotas.

BON-VOYAGE!

Eu, se pudesse
estaria no alto,
voando bem longe do fato
de saber que um novo olá no futuro é improvável

E eu que do meu amor penso saber tudo, não sei nada, apenas finjo perceber qualquer coisa que me destina. Como sorrisos em tardes chuvosas. Ou como juras acima de fatualidades. Algo havia mudado, quando acordei na terça, como se um outro sentimento me afluísse dentre tantos que me afloram à pele ou coçam. Suzana me deixara há pouco, dois ou três dias, e suas nuances me perseguem. Pensei, no começo, já no primeiro dia, não me abalar. Mas veja, eu Roberto Alvarenga, sou fraco. Sentimental.

Passaram-se meses. E o que mais me dói é esse sentimentalismo, logicamente, querer estar sempre bem, querer sempre o dia bonito, precisar dos amigos por perto. Não sei se as pessoas nascem sociáveis, ao que afirma Aristóteles, mas vejo que elas aprendem muito facilmente a substituírem-se a fim de alcançarem sua satisfação. Nunca entendi isso das pessoas não serem sinceras umas com as outras para não se desentenderem. Relações são mantidas por laços essencialmente mal feitos e egoístas, que forçam o ser humano a mentir? A mentira seria uma necessidade natural, Aristóteles? E o fazer-se de vitima?

Passaram-se mais meses. Mudei de Higienópolis para Pinheiros. Mudei de carro, precisava exibir algo melhor no trânsito. Mas veja, eu Roberto Alvarenga, sou fraco. Sentimental. Os olhos de Suzana não me saiam da mente, me seguiam no retrovisor do carro novo. Observavam-me diariamente na vidraça insulfilmada da entrada do Edifício Baptistella, desenhavam-se no escuro do quarto, no céu cinza do outono visto do oitavo andar. Conheci duzentas suzanas. Então não existe a originalidade, João Pereira Coutinho? Talvez eu concorde. Conheci outras fulanas, todas meio suzanas. O que existe é o egoísmo e as noites de sono mal dormidas em nome de algo que se descomprova sempre depois de deferido as pretensões de uma das partes.

— Qual o problema das pessoas? — perguntei à moça do caixa.
— Crédito ou débito? — me respondeu.
— Crédito. Mas será que tem salvação?
— Hm… — a moça ergueu uma sobrancelha, me entregou o comprovante — Acho que só piora.

à Nicholas Piccoli Tscherkas



Quando Teodoro me anunciou a notícia fiquei feliz e fiquei, assim como o achei, bobo. Imagine que loucura ser escritor se tanto já foi escrito e tanto se pode ler nas prateleiras das livrarias, das revistarias, nas bancas de jornal! Meu Deus, escrever mais o quê, Teodoro?, pensei em dizer, como quem também escreve e escreve como se não faltasse opinião quanto a isso ou aquilo, achando sempre que pode escrever mais bonito do que já foi escrito. Entendo Teodoro porque não me entendo. Talvez seja isso. Eu mesmo escrevo porque não sei cantar, não falo bem, não tenho voz bonita e às vezes gaguejo, enrolo muito a língua, e não toco nada: nem violão nem baixo, nem cavaco, nem pandeiro, não sei assoviar direito!, ora, só me resta escrever e deixar as pessoas imaginarem minhas palavras. Mas fiquei feliz, muito feliz. Vi que Teodoro compartilharia comigo a sina de ser artista-mal-compreendido, o amigo meio doido que os amigos lêem escondidos — ou não lêem, na verdade; até incentivam, dizem que é legal e te acham depressivo e meloso demais, mas consentem. O escritor não é de fato muito bem aceito, diferentemente dos músicos ou dos dançarinos. O que as pessoas devem entender é que cada um se vira como pode, se é que escrever te da alguma direção. Desenho mal também, e sei que Teodoro me acompanha. Disse claramente para ele ontem a noite: Cara, toma esse resto de breja aí, tô saindo fora, tenho que terminar a porra de um conto que comecei, é mais uma vadia, gostei da atitude, aliás: muita atitude!, meu amigo, descaragem e muita leitura.

Ser escritor é foda.

O sentimento se esvai
não sei se embora vai
não sei se a lembrança ruim
ou se a lembrança boa
dói mais
mas o desejo fica

A saudade cria trezentas pernas
que correm a mente e dão voltas
e voltas
e não sei se é o sentimento que volta ou se é o desejo que acompanha o vazio que persiste

O desejo cria braços
trezentos talvez
que não me deixam e não me largam
de onde fiquei quando você foi

Como
se não bastasse
meus dias estarem lotados
de coisas
a começar

Parece regra
pensar em você
sempre
antes de começar algo

à Caroline Santos



— Ah!!!
— O que houve?
— Um mosquitinho…

Não sei se o frio está fora
ou se esfrio o que carrego
sem peso ou medida
mas que tem por hábito
perfurar sem ter agulha.
Carrego o frio úmido e seco.
Úmido quando goteja outro tipo de dor
que não dói no corpo
e seco ao extirpar o que acalenta.
Vou me tomando de agasalho e xarope.
O primeiro esquenta
o corpo que abriga
um frio sem estação;
o segundo, contudo,
não tem prescrição,
nem terapia,
não cura nem alivia
o frio da queda
para o qual não há
agasalho de riso
ou xarope de gozo.

— “Frio de dentro
Ronaldo Costa Fernandes


Eram 17:29, 29 graus. Fim de verão, afinal. Chovia em todo lugar. Mas foi numa terça-feira à noite (um dia antes do qual estamos hoje) que se tocou do problema. O que usava para esquecer (teria de confessar), usava agora para lembrar-se. Como por prazer. Era bom estar entorpecido e rir das loucuras dela.


10/03/2013 09:48

Vejo o amor como produto do egoísmo, causador de sentimentos e não propriamente como uma tendência moral e afetiva. Existem pessoas, por exemplo, que não sei se por muito ou pouco egoísmo, se por característica própria ou retrocesso evolutivo, que amam só e somente a si mesmas.


14/03/2013 11:01

Elogiei antes, elogio agora: admiro sua determinação. Deve ser isso, não conseguir manter uma decisão, que faz de mim um idiota. Arrependo-me de tudo que te digo. De tudo o que fez: fatalidade, “o que você quer que eu faça?”, já fez, decididamente, sem culpa! Quero que te digam que eu concordo com você: sou mesmo a pior coisa que te aconteceu.


16/03/2013 23:29

As pessoas são tão ignorantes que quando você joga um erro na cara delas (o que ocasionalmente é necessário), elas ao invés de se reservarem a uma critica particular, preocupam-se apenas em repeti-lo e comprovarem-se (e se comprovarem) idiotas.


16/03/2013 23:35

O que eu já enxerguei positivo em mim, hoje vejo como desvantagem, como se só eu não conseguisse ser sujo e mentiroso. São valores transviados. Coisas que restaram a mim e a outros poucos coitados.


22/03/2013 12:49

Você é só uma garotinha mimada (com a prepotência de um urso) que não aprendeu que para ser mulher tem que deixar de tratar as pessoas como brinquedo — bajulando, dentro de um período que te interesse; ignorando, quando enjoa, quando já atendidas ou não atendidas suas expectativas ou pretensões.